skip to main |
skip to sidebar
estavam quatro homens debaixo da janela do meu quarto
quatro
quatro soldados armados de espingarda
quatro homens fardados
pendurada na parede do meu quarto havia uma aguarela
um desenho pintado de um gato siamês
cada soldado disparou uma bala
quatro
caiu a aguarela da parede
caiu esfacelado o gato com dois olhos verdes
entro no quarto e vejo a última bala
uma bala a dançar em redor do que sobrou do gato
Hoje não me sobrou tempo
Um minuto a seguir a outro
E eu sempre pensando
Eu sempre querendo que fosse
Mas o tempo voou
Nem uma gotinha
Nem um púcaro
Uma xícara.
Nem no cato,
Nem na anémona da janela do meu quarto,
Nem nos dois pés de cidreira plantados num vaso.
Mas daqui a pouco,
Prometo,
Antes que o sol desponte,
Sem nem cantar um galo, que é cidade
Pelas quatro ou antes
Daqui a nada, eu rego
Ponho água em tudo
Agora, por momentos, durmo…
De repente uma dor intensa
De uma costela a outra
Trespassada de nada
E a dor gritando: mata
E ela sem saber
Ela sem saber se risse
E não chorava, que chorar doía
Uma dor danada
E o sol a brilhar lá fora
Uma dor azeda colada à coluna
Zanzando no pescoço
Uma faca a trespassá-la
De uma aba a outra
Uma dor do caraças
E ela nem gritava socorro
Pasmada daquele estar do corpo
Ele a dizer: olha-me
Presta atenção ao que tenho dentro
Morta de repente – disseram
Morreu dizendo que esquisito
Ser assim que se acaba
E a dor intensa, enorme
Nem se esbateu, nem se foi embora
Não morreu com ela
Matou-a, simplesmente
Eu gostava de ter um barco
Que rumasse a norte
Um barco e um mapa
Eu gostava de ser comandante
De uma frota
Vários barcos e o meu adiante
Andar com bandeirinhas
Acenando
“Olá! Como foi o almoço”
E responder-me uma dama
No barco lá ao fundo
“ Vomitei tudo!”
Um barco para andar
De vento em popa
A passar ao largo
Algarismos, cotas, ramais
As letras e os números
Um barco que fosse
De uma a outra costa
Atravessando o mapa
A desfilar na tinta
Essa dor não é tua
Pintaram-na num muro
Abres os olhos
E ela tranca-te
Dói-te como dor vivida
Mas essa dor
(Garanto)
Não é uma dor tua
Inspira
Um fôlego intenso
E depois
Expira levemente
Descai -te num sorriso
Olha
O muro ficou liso
Eu disse
A dor não era tua
Vive
Se um dia me sentar
Num tamborete
Numa almofada
Num tapete
O corpo sobre a terra quente
Vermelha
Sem telha que me cubra
Nada mais que a lua
Enorme
Uma lua fugindo para sul
E eu
A dormir um sono
Na terra ainda quente do sol-posto
A lua derramando odores
E eu
Enrolada em tecidos cor da fruta
Doce
Sumo a escorrer-me pelos braços
Peganhento
A deslizar-me pelos seios
Pelo ventre
Se eu um dia me sentar
Como descrevo
Posso deixar-me ir
E deixar dito que
Morri no paraíso
Acordei morna
Ensebada
Uma ladeira de azeite
Uma estrada gordurosa
Acordei de sonhos maus
De ruínas e fantasmas
Acordei sem o sentido
Sem a alegria na alma
Vou fazer uma careta
Um esgar a ver-me no espelho
Vou fingir-me borboleta
Colibri ou mariposa
Coelhinho ou gato bravo
Vaca ruminando o feno
Vou fazer por ser quem seja
Por ser peixe ou gato ou cabra
Vou fugir de ser-me eu
Vou viver sem dar-me corda
Fingir-me desacordada
Vou para um monte lá em cima
Vou para o fundo do mar
Vou ficar chamando o sono
Vou dormir sem acordar
Vou fugir
Vou-me deixar
Vou-me vestir outra pele
Vou-me encher com outro nome
Vou vender a alma ao demo
Vou vou vou
Por aí ao deus dará
Pelos caminhos do mundo
Tudo menos este azeite
Este óleo muito quente
Esta dor que se derrama
Pelos quadriz e pelos olhos
Pela boca
Pela raiz dos cabelos
Uma dor que rasga e fere
Que se abate na garganta
Como mão que se contrai
Como tesoura cortando
Como se fora uma foice
Rapando seara loura
Do mindinho ao olho esquerdo
Passando pelo umbigo
Esfacelando-me a cintura
Remoendo-se pelas tripas
Uma dor que me acordou
Que se acorda em eu dormindo
Que nem dorme
Nem se aparta
Que se inventa e faz bonita
Dor amarga que rebenta
Como fel, como cicuta
Vai matando dia a dia
Os meus sonhos de menina