Domingo, Julho 05, 2009

meu acordar

Acordei morna
Ensebada
Uma ladeira de azeite
Uma estrada gordurosa

Acordei de sonhos maus
De ruínas e fantasmas
Acordei sem o sentido
Sem a alegria na alma

Vou fazer uma careta
Um esgar a ver-me no espelho
Vou fingir-me borboleta
Colibri ou mariposa
Coelhinho ou gato bravo
Vaca ruminando o feno

Vou fazer por ser quem seja
Por ser peixe ou gato ou cabra
Vou fugir de ser-me eu
Vou viver sem dar-me corda
Fingir-me desacordada

Vou para um monte lá em cima
Vou para o fundo do mar
Vou ficar chamando o sono
Vou dormir sem acordar

Vou fugir
Vou-me deixar
Vou-me vestir outra pele
Vou-me encher com outro nome
Vou vender a alma ao demo

Vou vou vou
Por aí ao deus dará
Pelos caminhos do mundo
Tudo menos este azeite
Este óleo muito quente
Esta dor que se derrama
Pelos quadriz e pelos olhos
Pela boca
Pela raiz dos cabelos

Uma dor que rasga e fere
Que se abate na garganta
Como mão que se contrai
Como tesoura cortando
Como se fora uma foice
Rapando seara loura

Do mindinho ao olho esquerdo
Passando pelo umbigo
Esfacelando-me a cintura
Remoendo-se pelas tripas
Uma dor que me acordou
Que se acorda em eu dormindo
Que nem dorme
Nem se aparta
Que se inventa e faz bonita
Dor amarga que rebenta
Como fel, como cicuta
Vai matando dia a dia
Os meus sonhos de menina

Sábado, Junho 13, 2009

eu choro-te

e nem me digas
fui em paz e graça
nem me peças: não chores
não me impeças vaidades
soluços gritados
ruidos
eu sou-me animal perdido
eu nem me sou
que eu grito este desespero
esta mágoa de não saber
este despudor de vida
este crescer eu cada minuto
este olhar um sol
um espaço
e onde...
onde?
eu que nada creio
onde?
indago e clamo
e choro
que eu não sei de amor
e nem de morte
que me fico perdida
e tenho medo
perdida em meu negro universo
clamo que me esperes
que me dês sinal
que eu veja esse em redor de luz
que hoje
e sempre
por mais que seja sol
é-me tudo negro
é tudo tão escuro

eu choro-te

Quinta-feira, Junho 11, 2009

que chova

Que a água se desfaça
que o suor rompa de cada poro
que o corpo escorra deslizando
o ventre em tuas mãos

Quero engolir a dor e rir do choro
sufocar dos odores a maresia
salgar dos limos entre as pedras


Ficar ébria de um respirar de leve

Entre teus joelhos, firmes amarras
ficar perdida em sabor de branco sal
confundindo luz e escuridão

Olhar de frente todos os sóis
e mais que ter-te doar-me em ti
solto, livre,companheiro
caminhante de serranias íngremes
pular todas as constelações
em nossos corpos seduzidos, meigos

Voltar devagarzinho nos teus beijos
aplanar a roupa com o riso
deixar correr areia, grão a grão
soltar a gratidão no teu sorriso

Amar-te serena, mão na mão
sorver a chuva no teu rosto
e ficar a olhar, a olhar

A ver-te até ao infinito...

Quero a água da chuva na janela
e entre ela e nós
entre ela e nós, o prazer do corpo



Quarta-feira, Maio 27, 2009

nem sequer desespero

I

Não me caias nunca
Não te precipites
Mesmo que isso
Mesmo que te queiras
Não te atires
Fica



II


Tenho a alma presa
Em bocados
Rota

A cabeça tonta
Revolteiam-se as tripas

E nem é desgosto
O que sinto é raiva

E esta tristeza
Esta dor contida
Esta água funda
Este imenso abismo

um silêncio surdo
um vazio


Segunda-feira, Maio 18, 2009

Brinquedos




Nem pedias
Nem ela queria que tu fosses.

Mas tu andavas pelas tardes
E chovia
Faziam-se grandes lagos
Água
Ou que fosse lama.

E tu corrias sem que ela te soubesse
Atravessavas numa pedalada
Duas
E mais meia dúzia,
De um ao outro lado.

Brincavas toda a tarde.

A água limpinha
Tirava a cor de terra no teu fato
Antes que ela visse
Quando tu voltavas
Era já de noite.




Sexta-feira, Maio 08, 2009

Bolsas de água




Rompeu-se a bolsa.
Ficou meu filho solitário
Sem o aguado travesseiro.

A minha gata, essa,
É ela quem rasga.
Gestos ternos, precisos.
Lambidela sábia.
Cada gatinho desenrolado da capinha ténue,
Um quase nada que os torna vivos.

A minha bolsa rasgou-se.
Água transparente e muco
(ou seria baça, nem recordo)
A bolsa de águas solta,
Sem mimo e sem segredo,
Instantes antes que viesses ao mundo.




Domingo, Abril 26, 2009

Domingo, dia santo




Em nome do Pai e do Filho
A pia com uma pinguinha lá no fundo
E ela aspergindo água pelo rosto
Domingo, dia do Santo

A igreja à pinha
As famílias muito unidas
E ela
Sem mais do que a cadela
no adro,à espera

Chovia que Deus dava
Águas de Janeiro
Esfriara tanto
Em nome do Pai e do Filho
e do Espírito Santo


Ensopada de água
e de caminho
Sentada na pontinha de um banco
Ave Maria, balbucia
Como se rezando

Esfrega uma mão na outra
De mãos postas
Ela que semelha orando
Em nome do Pai e do Filho
e do Espírito Santo